Einstein e Gago Coutinho

Fevereiro 24, 2009 às 9:38 pm | Publicado em Astronomia | 8 comentários

Já não é primeira vez que falo disto, mas apeteceu-me hoje voltar ao assunto, pois acho a polémica interessante.

Penso que é natural que a teoria de Einstein tenha suscitado reservas na época em que foi publicada. Afinal de contas, era uma física completamente nova que estava em jogo.

A teoria começou a chegar e Portugal pela mão de Ramos da Costa e de Melo Simas, o primeiro matemático e o segundo oficial de artilharia a trabalhar no Observatório de Lisboa (OAL).

Ramos da Costa publica, em 1921 e 1923, dois pequenos livros sobre a teoria da relatividade a reter:

1- A Teoria da Relatividade (Lisboa: Biblioteca Nacional, 1921);

2- Espaço, Matéria, Tempo ou a Trilogia Einsteiniana (Lisboa: Imprensa Lucas e C.a, 1923).

Quanto a Melo Simas promove em Novembro de 1922, um ciclo de palestras na Universidade Livre de Lisboa sobre a nova teoria com grande sucesso. Por outro lado, também em Lisboa, o catedrático Santos Lucas realiza no mesmo ano, um curso de Física-Matemática completamente dedicado à teoria da Relatividade. Portanto, pouco a pouco a teoria de Einstein é divulgada em Portugal, principalmente entre matemáticos e astrónomos. No entanto, nem toda a gente adere à nova física einsteiniana.

Um dos resistentes é o Almirante Gago Coutinho, que tinha visto uma palestra de Einstein no Brasil em 1925. Já nessa altura tinha criticado a nova teoria num artigo que escreveu para “O Jornal”. Depois nos anos 30 volta ao ataque depois de um curso que o catedrático Ruy Luís Gomes dá em Lisboa sobre Relatividade Restrita a convite do Núcleo de Matemática Física e Química (NMFQ).

Nos números 534, 535, 536 e 537, da revista Seara Nova, Gago Coutinho publica semanalmente, entre 6 e 27 de Novembro de 1937, vários artigos “dedicados aos alunos do Física liceal”, onde ataca a Relatividade. Diz o Almirante no primeiro desses artigos: “Julgava eu, pois, que não teria de voltar a atacá-la (a Relatividade); mas o facto de há meses se ter apresentado em Lisboa um professor universitário a fazer conferências sobre a Relatividade Restrita – como há anos fez o professor Langevin – provou-me que a chamada Mecânica Nova ainda conserva adeptos e que viria a propósito renovar as minhas dúvidas, ou, objecções, a respeito desta Revolução Científica”.

Em resposta o NMFQ publica uma nota na revista (nº 539) em que cita algumas passagens de um livro de Louis de Broglie, («La physique nouvelle et les quanta»), onde é defendida a Relatividade. Faz também vários elogios à forma como Ruy Luís Gomes tinha dado o curso e termina com uma chamada de atenção a Gago Coutinho:

“Finalmente este Núcleo considera grave que o Sr. Almirante Gago Coutinho dedique os seus artigos aos alunos de Física liceal. Dirigindo-se a quem tem forçosamente uma cultura reduzida e faculdades críticas pouco desenvolvidas, o Sr. Almirante vai, possivelmente, com o prestígio do seu nome feito em campo e assunto diferentes, criar a falsa opinião de que a teoria da relatividade consiste num amontoado de absurdos, contribuindo assim para desenvolver em jovens estudantes uma mentalidade de desconfiança perante a ciência”.

O reparo tinha obviamente razão de ser, pois Gago Coutinho conhecia superficialmente a Teoria da Relatividade e apenas a Relatividade Restrita. Portanto, falava de um tema que não dominava bem baseado apenas em preconceitos.

Honra seja feita, que depois deste reparo, o próprio Gago Coutinho muda de tom e sugere mesmo à revista que publique vários artigos de Ruy Luís Gomes, para que teoria de Einstein seja mais conhecida, o que acontece nos números 541, 543, 545, 547, 550 e 553. Mas o episódio mostra bem que o Almirante tinha falado sem conhecer a fundo o assunto. Digamos que a resistência de Gago Coutinho não era baseada numa discordância fundamentada, mas sim numa resistência preconceituosa contra a emergência de uma nova física com Einstein. Não terá sido o único a ter este tipo de resistência, mas é um tipo de atitude pouco científica num homem distinto como ele.

Anúncios

8 comentários »

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

  1. Resposta no blogue http://astropt.org/ Cumprimentos

  2. Pode responder aqui….

    José Matos

  3. “numa resistência preconceituosa contra a emergência de uma nova física com Einstein”
    Adjectivar o que outros outrora disseram é sempre descontextualizar as situações, seria o mesmo que eu estar agora a colocar em causa todos aqueles que erraram aos olhos dos dias de hoje, não tem sentido.
    Cumprimentos

  4. Caro Costa Pinto
    Não tem mal o Gago Coutinho ter dito o que disse e ter tido a posição que teve sobre a Relatividade. Nem meu post tem a intenção de o condenar por isso. Como eu digo no post outros tiveram posições semelhantes..Gago Coutinho não foi o único.

    Agora nós podemos analisar o que ele disse e fazer obviamente uma crítica, pois o Gago Coutinho que eu saiba não está acima da crítica histórica.

    E no caso dele é ele próprio que admite em 1937, depois do reparo do NMFQ, que conhecia apenas a teoria de panfletos de divulgação e do que tinha ouvido no Brasil em 1925. Aliás, a atitude dele no Brasil perante Einstein já tinha sido de grande desconfiança em relação à nova teoria, quando a conhecia certamente mal nessa altura.

    Ora, em qualquer época é suposto que para criticar uma nova teoria física (como a de Einstein), o crítico seja conhecedor profundo da mesma, o que não parecia ser o caso de Gago Coutinho.

    Portanto, a minha crítica é nesse sentido. Depois, convém também dizer que em 1937, a teoria da Relatividade, já não é propriamente uma teoria nova e que muito já se tinha escrito sobre a mesma, tanto em Portugal como no estrangeiro. Portanto, Gago Coutinho podia ter aprofundado os seus conhecimentos sobre o tema, coisa que claramente não fez como o próprio admite na Seara Nova.

    Espero obviamente que na sua tese faça uma análise objectiva sobre tudo isto, pois o assunto merece ser estudado…

    Um abraço

    José Matos

  5. Sabe que o conceito de “crítica histórica” não é nem deverá ser utilizado para efectuar juízos de valor, se se refere à sua opinião sobre os acontecimentos passados, aí sim tem cabimento. Mas a obra de um homem como Gago Coutinho não se resume às apreciações que este realizou sobre a Teoria da Relatividade. Lembro o trabalho de geodesia e de observação astronómica que por exemplo serviu para marcar com precisão a linha do equador e muito mais..
    Cumprimentos

  6. Quanto a objectividade perante o homem, é difícil, mas não impossível, as suas apreciações sobre a teoria da relatividade estavam erradas, mas quem é que não erra, essa é uma condição humana a que nem gago Coutinho conseguiu evitar, o que não se deve fazer são este tipo de apreciações http://bde.weblog.com.pt/arquivo/085376.html

  7. Caro Costa Pinto

    É como você diz, não é por ele ter errado em relação à Teoria da Relatividade que vamos diminuir a sua importância. Aliás é ele próprio que sugere à Seara Nova para publicar os artigos de Ruy Luis Gomes, com quem manteve correspondência depois disso. Portanto, ele próprio muda de tom, pois percebe que se calhar não foi justo, nem correcto nas apreciações que fez.

    No entanto, penso que a polémica tem interesse do ponto de vista histórico e será sempre uma faceta a explorar na vida dele. Mas é óbvio que o pensamento de Gago Coutinho é conservador em relação à Relatividade e importará ler com atenção os artigos que escreveu na Seara Nova para perceber a razão disso.

    De resto, a vida dele estende-se muito para além desta polémica, que é apenas um faceta da sua vida…

    Um abraço

    José Matos


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Create a free website or blog at WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d bloggers like this: