Uma astrologia curiosa

Julho 28, 2008 às 2:42 pm | Publicado em Livros | 2 comentários

Sempre vi a astrologia como uma espécie de prática de auto-ajuda ou de mediação pessoal que depende muito da experiência e da intuição do astrólogo para detectar os problemas pessoais de cada um. Mas nessa perspectiva nunca a considerei muito diferente de outras práticas ocultas, como o mediunismo, o tarot, a quiromancia, a magia, que têm o mesmo efeito nas pessoas, embora usando métodos e sistemas de crenças diferentes.

Depois a astrologia é daquelas coisas que dá para tudo. Tanto se diz que determina a vida de um indivíduo como o contrário disse. No fundo é um sistema arco-íris que dá para todas as cores, consoante aquela que gostamos mais. Ouvimos o que gostamos de ouvir e depois é tudo uma questão de tendências.

Falo disto a propósito de um livro que acabou de sair do José Prudêncio, um professor de filosofia e astrólogo. É que o livro é uma boa reflexão crítica sobre a astrologia, os seus problemas e limitações e tem mesmo uma proposta para uma nova astrologia. Não é que tenha ficado seduzido pela proposta, mas o livro tem coisas interessantes.

Ao ver o livro não é difícil perceber que o autor conhece bem as concepções filosóficas e culturais da astrologia e também as contradições e as limitações do próprio sistema. E é por ter tomado consciência dessas limitações e contradições, que Prudêncio decidiu inventar um novo sistema astrológico, a chamada astrofilosofia, que no fundo é um cocktail de filosofia e de astrologia.

Mas digno de registo (pela sinceridade) é que Prudêncio reconhece que a astrologia não é uma ciência, e que provavelmente não tem qualquer fundamento científico e que na verdade não é mais do que uma técnica de linguagem usada para resolver problemas pessoais. Ora, perante isto é espantoso que depois Prudêncio adopte como base conceptual da sua nova filosofia, a mesma base conceptual da astrologia, ou seja, as posições planetárias, que o próprio reconhece não terem uma base física ou porventura não corresponderem a uma influência real. Ou seja, entra em completa contradição. Ou melhor dizendo, é como ser padre sem acreditar em Deus.

No novo sistema de Prudêncio (a astrofilosofia) percebe-se que continua a considerar que as três coisas mais importantes na astrologia são a hora do nascimento, o local e a data do mesmo, pois partindo da data, da hora e do local pode-se calcular a posição exacta dos planetas na altura do nascimento. Esquece-se que qualquer pretensa influência planetária sobre a Terra seria praticamente a mesma em qualquer lugar (o que torna irrelevante o local) e que antes de nascer já somos um ser dentro do útero materno e que qualquer influência planetária já se devia sentir aí. E que o sistema solar, além de planetas e da Lua, tem cometas, asteróides, luas de outros planetas, trans-neptunianos e o próprio Sol, que também deviam entrar nessas cartas astrológicas. E que a influência da Lua sobre as marés é gravitacional e que pode ser calculada facilmente sobre o corpo humano, não tendo qualquer influência subtil em nós.

O livro é vasto e adivinha-se que nasceu dos estudos que o autor fez em Inglaterra no âmbito de um curso sobre astrologia cultural. Teria sido interessante reportar-se unicamente à evolução cultural da astrologia, sem querer inventar um novo sistema. Mas Prudêncio é um astrólogo praticante e consciente das contradições da astrologia convencional tentou conceber um sistema com menos contradições. O problema é que o sistema conceptual da astrologia não tem fuga possível a não ser abandoná-lo completamente. Aliás, no livro aparece o exemplo, de alguns astrólogos australianos, que abandonaram a astrologia por perceberem que as previsões astrológicas tanto funcionavam para as pessoas de uma forma, como da forma completamente contrária, o chamado efeito arco-íris. A partir daí perceberem que a prática astrológica não tinha qualquer coerência. Prudêncio preferiu um caminho diferente. Muito bem. Mas faz-me lembrar um padre que descobre que se calhar Deus não existe, mas como gosta da profissão continua a exercer. Parece-me ser o caso de Prudêncio, que não quis deixar a paixão da juventude. Mas achei interessante o livro e recomendo pela abordagem crítica que faz da astrologia convencional.

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2 comentários »

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  1. Olá!

    Tenho um grande interesse em astrologia, no entanto, o meu conhecimento neste campo não é muito…
    Não consigo resistir a ler a provisão diária para o meu signo. Uso o site http://horoscopo.kazulo.com/ que disponibiliza o horóscopo diário de cada signo e outras informações sobre os signos do Zodíaco ou do horóscopo chinês.

    Beijinhos

  2. Ponto de encontro da alma portuguesa…

    http://www.imperioportugues.wordpress.com

    Até já…


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