Os divulgadores

Março 30, 2005 às 6:04 pm | Publicado em Astronomia | Deixe um comentário
A divulgação da astronomia tem tido ao longo do tempo vários protagonistas. Os próprios astrónomos, os amadores e os divulgadores. Os divulgadores sempre existiram nos planetários, que são os sítios de divulgação por excelência. Se olharmos para a imensa quantidade de planetários que existem por todo o mundo vemos que muitos são animados por divulgadores. E nem sempre os divulgadores são astrónomos, senão não havia gente que chegasse para tanto planetário. A verdade é que muitos nem sequer possuem uma licenciatura em astronomia. Ora sendo assim, será que estas pessoas deviam falar de astronomia em público? Vamos pensar um pouco sobre isso.
Em primeiro lugar, num cenário ideal seria bom que todas as pessoas que falam de astronomia em público tivessem formação superior na área, além de jeito como é óbvio. É claro que este tipo de requisito é difícil de alcançar, pois a quantidade de lugares a preencher nesta área é elevada e nem todos os licenciados possuem apetência para falar em público ou para fazer divulgação. Portanto, num cenário mais realista é natural encontrar amadores a fazer divulgação. Em todos os países isso acontece das mais variadas formas. Existem associações de astronomia que fazem divulgação e aí encontramos muitos amadores nesse papel. Existem centros de ciência que também empregam amadores. Existem planetários que fazem o mesmo. E centros culturias a mesma coisa. Desta forma, os amadores estão um pouco espalhados em várias estruturas de divulgação falando de astronomia em público ou mesmo dando cursos de iniciação. E em muitos sítios fazem um excelente trabalho, apesar de não terem um curso de astronomia.

No entanto, nos últimos anos, tornou-se possível a qualquer pessoa interessada em astronomia obter formação superior nesta área sem chegar ao nível da licenciatura. Existem cursos de formação de nível universitário que dão uma formação razoável em várias matérias e cuja creditação no futuro deverá ser reconhecida por todos os países europeus no âmbito do tratado de Bolonha. Para já, estes cursos estão limitados ao Reino Unido e a França, mas é possível que no futuro cheguem a outros países. São cursos que dão um certificado ou um diploma de estudos superiores, embora não correspondam ao grau de licenciatura nem de bacharelato. Mas permitem pelo menos uma formação superior nesta área que pode ajudar todos aqueles que se dedicam à divulgação.

Desta forma, podemos ter no futuro muitos divulgadores com este tipo de formação colmatando assim a falta de formação superior. Mas será isto suficiente? Em muitos casos será, pois um divulgador quando fala em público não está a falar para especialistas, mas sim para leigos que pouco sabem de astronomia e que estão apenas interessados em conhecer um pouco mais. Portanto, o nível de conhecimentos que deve possuir, não precisa de ser muito específico (como um astrónomo profissional), mas sim o mais abrangente possível de forma a poder responder aos mais diversos temas. No entanto, é sempre bom que tenha na sua formação base astronomia de forma a saber do que está a falar.

Este tipo de requisito é já habitual em vários países onde os divulgadores são contratados para os mais diversos sítios desde planetários até centros culturais.

Mas há outra coisa que se observa lá fora. Os amadores, os divulgadores, as associações de amadores, os centros culturais e científicos, os planetários possuem uma ligação estreita com as escolas. E esta é outra área de acção característica dos divulgadores. Quantos por esse mundo fora não visitam as escolas com planetários portáteis ou com telescópios? Quantos não fazem sessões de observação ou ajudam os alunos e professores em projectos escolares? Esta interacção é positiva e permite fazer muita coisa que nem sempre os profissionais podem fazer por falta de tempo ou de disponibilidade. Portanto, é neste tipo de contextos que os divulgadores e os amadores se movimentam.

Em todos os países evoluídos se percebe isto e os profissionais e amadores colaboram não só na divulgação como também em projectos de observação. Cada um conhece o seu papel e as suas competências. Cada um sabe o que pode fazer pela astronomia.

É importante que este espírito também exista no nosso país. Em alguns casos já existe e noutros poderá existir no futuro. Portugal é um país pequeno com uma comunidade astronómica também pequena. Durante muitos anos era praticamente inexistente e os amadores também eram muito poucos e divulgadores não existiam. Daí que este tipo de questões não se colocava e os profissionais olhavam para os amadores com algum distanciamento e superioridade.

Nos últimos 10 e 15 anos tudo isto mudou. Os profissionais cresceram, os amadores também e alguns divulgadores surgiram. A astronomia entrou nas escolas e os planetários surgiram em vários locais juntamente com vários centros de ciência. Tudo isto criou um novo mundo de oportunidades e de solicitações. É natural que a par dos profissionais, os amadores e os divulgadores tenham aqui o seu papel. Se todos souberem trabalhar em conjunto estou certo que a nossa astronomia será melhor e que o ensino e a divulgação da mesma terá outro impacto.

Dois nomes

Março 27, 2005 às 8:55 pm | Publicado em Astronomia | Deixe um comentário
Dois nomes para o Big Bang de um concurso que a Sky and Telescope lançou em Agosto de 93 e cujo resultado final foi continuar a chamar Big Bang.

NICK (Nature’s Initial Cosmic Kick start).

BS (Before Sagan)

Três livros

Março 27, 2005 às 1:55 pm | Publicado em Astronomia | Deixe um comentário

Três livros sobre vida extraterrestre.

Vida Inteligente no Universo, Carl Sagan e I. S. Chklovskii da Europa-América

Extraterrestres – Ciência e Inteligência Alienígenas, (colecção de ensaios/coordenação de Edward Regis JR.) da Europa-América

Estaremos Sós no Universo? (vários autores/colecção de entrevistas) da Âncora Editora

Descobertas extra-solares IV

Março 27, 2005 às 11:42 am | Publicado em Astronomia | Deixe um comentário
Talvez vale a pena chamar a atenção para três coisas que as novas descobertas extra-solares vieram mudar a respeito dos dois planetas em questão. Espero que ajudem a perceber melhor a importância das descobertas.

Temperatura – a detecção do sinal infravermelho permite saber a temperatura dos planetas em questão com alguma precisão. Ambos são planetas quentes (1160-1130 K), como já era de esperar devido à sua proximidade às estrelas. Como são planetas que apresentam sempre o mesmo lado voltado para as suas estrela existe uma diferença de temperatura entre o lado nocturno e o lado diurno. Mas segundo alguns estudos teóricos, existem ventos zonais e correntes de calor que circulam de um lado para o outro afectando a temperatura atmosférica em função da longitude. Até aqui tudo bem. O problema é saber qual é a quantidade de calor que é transferida do lado diurno para o lado nocturno durante esses movimentos de calor?

Atmosfera – Até hoje HD 209458b era o único planeta extra-solar conhecido com atmosfera. As observações do TrES-1 indicam, no entanto, que este também pode ter uma atmosfera composta por monóxido de carbono e água. Se for confirmada, será que também está em processo de escape como no caso de HD 209458b?

Órbita – Ambas as equipas mediram que o tempo que os planetas demoram do trânsito à frente das estrelas até ao momento em que se escondem por trás delas (eclipse secundário) é exactamente igual ao tempo que vai do eclipse secundário ao trânsito. Isto mostra que os dois planetas têm que ter órbitas praticamente circulares com pouca ou nenhuma excentricidade, o que está de acordo com as teorias que dizem que isto deve acontecer devido às interacções gravitacionais entre estrelas e planetas tão próximos. Mas no caso do HD 209458b, a órbita circular levanta um problema complicado. É que dos 7 planetas conhecidos que fazem trânsitos, este é o que apresenta o maior raio planetário (35% maior do que Júpiter). Ora isto é muito estranho, pois o planeta tem 70% da massa de Júpiter. Ou seja, deve haver alguma fonte de calor interna que provoca este inchaço no planeta ou então o planeta é mesmo estranhamente pouco denso. Uma das teorias até agora é que o planeta não tinha uma órbita circular (devido à influência de outro companheiro planetário) e que a sua excentricidade orbital proporcionava marés gravitacionais por parte da sua estrela, que o aqueciam por dentro. Com esta descoberta, esta teoria vai borda fora e é preciso encontrar agora uma outra explicação mais convincente.

Descobertas extra-solares III

Março 27, 2005 às 9:12 am | Publicado em Astronomia | Deixe um comentário
Continuando na senda das recentes descobertas extra-solares aqui vai uma referência de 2002/2003 da primeira tentativa de detectar no infravermelho o sinal do planeta HD 209458b usando o VLT do ESO. Como se pode ver pelo resumo não foi bem sucedida. Alguns dos autores do artigo são os mesmos da descoberta da agora. Ou seja, a preserverança dá os seus frutos. Já depois desta primeira tentativa fizeram uma segunda (2003) usando outro telescópio (o IRTF). Mais uma vez, não conseguiram apanhar o que queriam. Mas não desistiram e agora com o Spitzer tiveram sucesso.

E já agora um mau exemplo de uma notícia de jornal a este respeito.

Curso

Março 27, 2005 às 8:57 am | Publicado em Astronomia | Deixe um comentário
Em Junho deste ano, vamos ter pela primeira vez em Portugal um curso da série Chautauqua, apoiado pela NSF americana. Os organizadores são o Carlos Oliveira e o Luis Tinoca. Uma iniciativa a não perder. Ver aqui programa.

Hubble

Março 27, 2005 às 8:27 am | Publicado em Astronomia | Deixe um comentário
Já agora por falar em gabinetes de comunicação, só o Telescópio Espacial Hubble tem 40 pessoas a trabalhar neste sector. Para o mês que vem apaga 15 velas. A revista Espace Magazine lançou há pouco tempo um suplemento especial sobre esta máquina de fazer ciência. A ver.

Os guardiões da sabedoria

Março 27, 2005 às 8:09 am | Publicado em Astronomia | Deixe um comentário
Não me lembro bem de quando comecei a gostar exactamente de astronomia, mas sei que foi por volta dos 10 anos de idade, ou seja, em 1980. Nesse tempo, não havia net, nem revistas de astronomia como agora, nem telescópios há venda no hipermercado, nem hipermercados, nem livros como agora, nem cursos, nem Astronomia no Verão, nem astronomia nas escolas, nem divulgação, nada do que temos hoje.

Eram tempos difíceis, em que os amadores faziam os seus próprios telescópios, em que as revistas de astronomia (Sky & Telescope e Astronomy) circulavam em meios restritos, em que os livros de astronomia eram raros, em que o único planetário que existia em Portugal era o de Lisboa, em que os observatórios estavam fechados ao público, em que nas escolas nem sequer se ouvia falar disto.

Em 25 anos tudo isto mudou. Hoje os miúdos de 10 anos que andam na escola já ouvem falar de astronomia. Os estudantes no fim do secundário já podem escolher um curso de astronomia e os amadores em geral têm acesso a meios que os amadores de há 25 anos nem sequer sonhavam. É, por isso, que vale a pena viver hoje para falar destas coisas. O meu trabalho seria impossível há 25 anos, mesmo há 20 ou há 15. Hoje e nos últimos 10 anos tornou-se possível.

Não é um trabalho fácil, pois tem as suas incertezas, mas vai dando para viver. Também sei que nem toda a gente gosta dele. Há quem ache que a divulgação devia ser feita unicamente pelos profissionais da astronomia e que os amadores não deviam fazer divulgação. É uma opinião respeitável como outra qualquer. Mas é uma visão típica de um país como o nosso, onde os académicos acham que são os mais sábios dos mais sábios, que são os guardiões da sabedoria. Esquecem-se que noutros países mais desenvolvidos muita da divulgação que se faz é feita por amadores. Mas já não lhes ligo. Já não me preocupo com isso. Dentro das minhas limitações e da minha paixão por isto vou fazendo o que posso. Sei que nem sempre faço as coisas bem, que vou aprendendo com o tempo e com os erros, mas isso é o que qualquer divulgador faz. Ou melhor dizendo é o que qualquer pessoa faz na vida.

Descobertas extra-solares II

Março 26, 2005 às 7:04 pm | Publicado em Astronomia | Deixe um comentário
Quem anda nos meandros da divulgação sabe como é que as coisas funcionam. Todas as missões espaciais têm o seu gabinete de comunicação. Com mais ou menos pessoas, mas existem para divulgar junto dos media as descobertas que vão sendo feitas. As pessoas que lá trabalham são profissionais da comunicação. Sabem como funcionam os jornais e a televisão. Sabem como vender o produto. E sabem que há descobertas que vendem mais do que outras. A descoberta no infravermelho da radiação de dois planetas extra-solares é uma delas. É uma descoberta importante e um marco no estudo de planetas extra-solares, mas foi se calhar mal interpretada por muita gente devido a erros na imprensa.

Todos nós sabemos que não é fácil discernir um planeta extra-solar do imenso clarão que a sua estrela produz. No visível ainda ninguém conseguiu tal feito, mas as hipóteses no infravermelho são maiores, pois a relação de contraste entre a estrela e o planeta aumenta no infravermelho. Mas a ideia dos especialistas não era obter uma fotografia no infravermelho. Não era mostrar um pontinho à beira de uma estrela e dizer aqui está a primeira fotografia de um planeta extra-solar. O que eles queriam era observar o trânsito de um planeta extra-solar e através de toda a radiação recebida conseguir inferir a diferença entre a radiação proveniente do planeta e da própria estrela. A ideia é que a radiação infravermelha será ligeiramente maior quando o planeta está a passar à frente da estrela, pois corresponde à soma da radiação do planeta mais a da estrela, do que quando o planeta está a passar por trás da mesma. E se olharmos para o momento em que ele está a passar por trás da estrela e extrairmos essa passagem à radiação total recebida no nosso detector quando ele estava a passar pela frente, podemos medir qual é a quantidade de radiação correspondente ao planeta. Mas distinguir esta diferença é um trabalho complicado, pois estamos a falar de uma diferença ínfima, como é fácil de imaginar.

No entanto, estudos teóricos apontavam que essa detecção pelo Telescópio Espacial Spitzer era possível. E foi isso que foi feito. Existem poucos planetas extra-solares conhecidos que façam trânsitos em frente às suas estrelas. Mas dos poucos conhecidos foram escolhidos dois. Foram escolhidos de forma independente por duas equipas que não sabiam uma da outra. Este tipo de investigações é mesmo assim. O pessoal cala-se bem caladinho e vai fazendo o seu trabalho para ter o mérito da descoberta. Mas tanto uns como outros conseguiram os seus objectivos. Detectaram o sinal infravermelho do planeta. Com esta informação em mãos conseguiram calcular as temperaturas efectivas dos dois planetas e a excentricidade orbital de cada um. Além disso, mostraram que este tipo de detecção é possível e que abre um campo de estudos muito interessante no futuro.

Ora o departamento de comunicação do Spitzer pegou na descoberta e tratou de divulgá-la cá para fora dando ênfase à descoberta pela primeira vez da luz de planetas extra-solares. Este destaque não era inocente. O pessoal da comunicação sabia que era assim que a descoberta devia ser vendida aos jornais e à televisão. E como se pode ver tinham a sua razão. A notícia correu mundo. Mas a palavra luz é traiçoeira, pois pelo senso comum associamos luz à radiação visível, quando o infravermelho também é luz. E isto pode ter consequências na má interpretação da notícia.

E, de facto, nos jornais e na TV a coisa nem sempre é bem digerida. Alguns (por cá) chegaram mesmo a noticiar que foi “detectada uma luz fora do sistema solar”. É claro que quem escreveu isto, não tem a mínima noção do que é uma estrela senão não dizia uma tolice destas. Mas mal ou bem deram destaque à notícia. A estratégia de comunicação resultou e os responsáveis pelo Spitzer mostraram mais uma vez aos contribuintes americanos que o telescópio vale o dinheiro que custou. É assim que as coisas funcionam na América. Os contribuintes têm que sentir que também participam na exploração do Cosmos. Que aquele sucesso também é deles. Que o país precisa destas coisas para afirmar a sua grandeza.

Mas quem estava à espera de ver uma fotografia dos ditos planetas ficou desiludido. Afinal não há fotografia! Há uns tipos que dizem que apanharam a luz dos planetas, mas não há fotografia? Como é que pode ser uma coisa destas? Mas agora talvez percebam melhor que o que eles apanharam foi apenas o sinal infravermelho desses planetas ou melhor dizendo conseguiram do meio do fluxo estelar extrair o sinal dos planetas. Portanto, não há fotografia nenhuma nem podia haver neste tipo de detecção. É claro que a descoberta é importante na mesma, mas ainda está para chegar o dia em que vamos ver a fotografia de um planeta extra-solar. Mas um dia havemos de lá chegar, pois há quem já esteja a trabalhar no assunto. No segredo dos telescópios e dos gabinetes acontecem coisas todos os dias. É preciso é paciência e esperar pelas novidades.

P.S. A ler o artigo na Sky and Telescope sobre o mesmo assunto.

Descobertas extra-solares

Março 24, 2005 às 11:56 am | Publicado em Astronomia | Deixe um comentário
A detecção no infravermelho da luz de dois planetas extra-solares já conhecidos é importante para estudo deste tipo de corpos. No fundo, o que foi feito foi observar o trânsito dos dois planetas no infravermelho e isolar a luz apenas referente aos planetas, mais fácil de isolar no infravermelho que no visível devido ao contraste com a estrela. Na imagem podemos observar a curva de luz dos dois planetas, muito semelhante ao que se vê no visível. Mas foi bem gizada esta observação no infravermelho usando um telescópio como Spitzer. É daquelas coisas óbvias, mas bem pensada. A notícia com os respectivos papers está disponível aqui e aqui.

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